O GRANDE RISCO NAS INSTALAÇÕES DA INSTRUMENTAÇÃO EM ÁREAS CLASSIFICADAS SE CHAMA "DESINFORMAÇÃO"
Eng. Giovanni Hummel

(Artigo publicado na Revista InTech - nov 1997)


1. INTRODUÇÃO

Quando iniciamos o projeto de uma nova planta em áreas classificadas, o primeiro aspecto que se tem em mente é a observação de todos os requisitos que assegurem que a instrumentação selecionada e sua instalação não se constituam em fonte de ignição.

2. CUIDADOS

O Brasil dispõe na atualidade de excelentes produtos, sejam eles nacionais ou importados, certificados no Brasil ou no exterior como sendo adequados para áreas classificadas. Apesar disso, o certificado não passará de um papel sem serventia se o usuário e as empresas de engenharia especificarem mal (selecionando produtos certificados segundo o NEC e instalando-os segundo normas brasileiras, especificando instrumentos com tipos de proteção inadequados para a área classificada onde serão empregados).

 O certificado será igualmente sem serventia se as empresas representantes de fabricantes estrangeiros apresentarem aos usuários um certificado emitido para um produto na sua versão européia, quando aquele que foi entregue referia-se a versão norte-americana. Pior, ainda, é aquele produto que sequer corresponde aos documentos relacionados na certificação. Imagine as duas situações anteriores juntas! E tudo isto decorrente da pura "desinformação".

Neste mercado globalizado, especificar corretamente é uma obrigação e receber corretamente é um direito.

A especificação e o fornecimento correto constituem a primeira fase deste processo. A segunda fase é a própria instalação, onde devemos atender aos requisitos da norma brasileira NBR 5418, observando os critérios específicos para os tipos de proteção empregados na instrumentação.

Ler os certificados de conformidade com atenção e observar as restrições ao uso (quando existentes, o número do certificado é acompanhado pela letra "X") poderá evitar uma série de erros básicos, tais como proteger um transmissor com barreiras de diodos convencionais, quando no certificado indica que o mesmo só pode ser empregado com unidades de isolação galvânica.

Avaliar os requisitos para os cabos da instrumentação intrinsecamente segura, evitando-se passar por um cabo multipolar um circuito destinado para uma Zona 0, quando todos os demais são para Zona 1. Evitar colocar em um mesmo cabo multipolar vários circuitos de transmissores de pressão, que se associados fornecerão níveis de energia inseguros (falhas previstas em norma em função do tipo de cabo empregado).

Um equívoco muito comum é o emprego dos parâmetros reativos nominais dos cabos para a avaliação dos parâmetros de interconexão dos equipamentos intrinsecamente seguros e seus associados, e não os valores resultantes nas condições de falhas previstas para os cabos (conforme a NBR 5418).

Tão importante quanto as duas fases anteriores encontra-se a "manutenção". É nesta fase que o fantasma da desinformação age de forma implacável. Após uma simples troca de um resistor, aparentemente tudo se encontra como no produto original mas, na realidade, a instrumentação teve seu tipo de proteção violado, porque o verniz que cobria o lado de solda da placa não foi reposto.

O exemplo anterior é o mais singelo de todos, para não se falar das trocas indevidas de componentes por outros ditos "equivalentes" que diminuem as distâncias de isolamento. Para não delongarmos neste ponto, fica o alerta: "em instrumentos intrínsecamente seguros não existe redundâncias desnecessárias nem características físicas sem função".

Instrumentos com invólucros à prova de explosão também têm sua proteção comprometida pelas pinturas que obstruem as juntas à prova de explosão, pelo fechamento inadequado dos invólucros, entre tantos outros aspectos.

A conclusão que se tira de tudo isto, para um país onde existe a obrigatoriedade da certificação para toda a instrumentação utilizada em áreas classificadas (segundo a Portaria INMETRO 121 de dezembro / 1996), é que a "desinformação" é um dos primeiros fatores que propiciam o desrespeito a lei. O não cumprimento da lei vai além da infração, é a falta de respeito para com a vida do ser humano.

O Brasil apresenta um quadro respeitável no contexto latino - americano, bem como no próprio hemisfério sul. A normalização e a certificação em muito evoluíram nestes últimos dez anos. O que nós, da sociedade de instrumentação, temos de assegurar, é a continuidade de um trabalho de divulgação e orientação. Além de reciclarmos os técnicos já atuantes nos avanços da tecnologia, é hora de darmos o nosso apoio na formação básica de nossos futuros profissionais, de forma que os recém-formados possam responder com uma maior velocidade, garantindo o emprego seguro da instrumentação em áreas classificadas.