O Brasil dispõe na atualidade de excelentes produtos, sejam eles
nacionais ou importados, certificados no Brasil ou no exterior como
sendo adequados para áreas classificadas. Apesar disso, o
certificado não passará de um papel sem serventia se o usuário e
as empresas de engenharia especificarem mal (selecionando produtos
certificados segundo o NEC e instalando-os segundo normas
brasileiras, especificando instrumentos com tipos de proteção
inadequados para a área classificada onde serão empregados).
O certificado será igualmente sem serventia se as empresas
representantes de fabricantes estrangeiros apresentarem aos usuários
um certificado emitido para um produto na sua versão européia,
quando aquele que foi entregue referia-se a versão norte-americana.
Pior, ainda, é aquele produto que sequer corresponde aos documentos
relacionados na certificação. Imagine as duas situações
anteriores juntas! E tudo isto decorrente da pura "desinformação".
Neste mercado globalizado, especificar corretamente é uma obrigação
e receber corretamente é um direito.
A especificação e o fornecimento correto constituem a primeira
fase deste processo. A segunda fase é a própria instalação, onde
devemos atender aos requisitos da norma brasileira NBR 5418,
observando os critérios específicos para os tipos de proteção
empregados na instrumentação.
Ler os certificados de conformidade com atenção e observar as
restrições ao uso (quando existentes, o número do certificado é
acompanhado pela letra "X") poderá evitar uma série de erros básicos,
tais como proteger um transmissor com barreiras de diodos
convencionais, quando no certificado indica que o mesmo só pode ser
empregado com unidades de isolação galvânica.
Avaliar os requisitos para os cabos da instrumentação
intrinsecamente segura, evitando-se passar por um cabo multipolar um
circuito destinado para uma Zona 0, quando todos os demais são para
Zona 1. Evitar colocar em um mesmo cabo multipolar vários circuitos
de transmissores de pressão, que se associados fornecerão níveis
de energia inseguros (falhas previstas em norma em função do tipo
de cabo empregado).
Um equívoco muito comum é o emprego dos parâmetros reativos
nominais dos cabos para a avaliação dos parâmetros de interconexão
dos equipamentos intrinsecamente seguros e seus associados, e não
os valores resultantes nas condições de falhas previstas para os
cabos (conforme a NBR 5418).
Tão importante quanto as duas fases anteriores encontra-se a "manutenção".
É nesta fase que o fantasma da desinformação age de forma implacável.
Após uma simples troca de um resistor, aparentemente tudo se
encontra como no produto original mas, na realidade, a instrumentação
teve seu tipo de proteção violado, porque o verniz que cobria o
lado de solda da placa não foi reposto.
O exemplo anterior é o mais singelo de todos, para não se falar
das trocas indevidas de componentes por outros ditos "equivalentes"
que diminuem as distâncias de isolamento. Para não delongarmos
neste ponto, fica o alerta: "em instrumentos intrínsecamente
seguros não existe redundâncias desnecessárias nem características
físicas sem função".
Instrumentos com invólucros à prova de explosão também têm
sua proteção comprometida pelas pinturas que obstruem as juntas à
prova de explosão, pelo fechamento inadequado dos invólucros,
entre tantos outros aspectos.
A conclusão que se tira de tudo isto, para um país onde existe
a obrigatoriedade da certificação para toda a instrumentação
utilizada em áreas classificadas (segundo a Portaria INMETRO 121 de
dezembro / 1996), é que a "desinformação" é um dos
primeiros fatores que propiciam o desrespeito a lei. O não
cumprimento da lei vai além da infração, é a falta de respeito
para com a vida do ser humano.
O Brasil apresenta um quadro respeitável no contexto latino -
americano, bem como no próprio hemisfério sul. A normalização
e a certificação em muito evoluíram nestes últimos dez anos. O
que nós, da sociedade de instrumentação, temos de assegurar, é a
continuidade de um trabalho de divulgação e orientação. Além de
reciclarmos os técnicos já atuantes nos avanços da tecnologia, é
hora de darmos o nosso apoio na formação básica de nossos futuros
profissionais, de forma que os recém-formados possam responder com
uma maior velocidade, garantindo o emprego seguro da instrumentação
em áreas classificadas.